terça-feira, 6 de julho de 2010

UMA NOVA VELHICE FRENTE À SOCIEDADE

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como alicerce o artigo “The New Aging: Self Construction and Social Values” da autoria de Kenneth J. Gergen e Mary M. Gergen (2000).
O tema central deste artigo baseia-se em torno de estudos feitos nos Estados Unidos, e por isso todos os dados mencionados referem-se a esse país, se nada for dito em contrário. O objectivo fundamental é descrever as principais alterações na sociedade americana e as suas implicações acerca da concepção do envelhecimento e da velhice.
De acordo com o texto, o conceito de velhice e de envelhecimento foi-se alterando, sendo acompanhado igualmente pela mudança de valores/padrões da sociedade americana. Desta forma, é, portanto, necessário que esteja patente ao longo deste estudo a noção de contexto cultural, assim como de conceitos não implícitos directamente no trabalho, tais como a despessoalização e a naturalização da velhice.

DESENVOLVIMENTO

De acordo com os autores, à medida que a sociedade vai sofrendo alterações, os valores também vão-se modificando, sendo uns alterados e outros abandonados. Deste modo, ao analisar-se um determinado valor tem que se ter em conta o contexto cultural e histórico, para que assim se possa compreender as diferentes contextualizações existentes, nomeadamente, da velhice e do envelhecimento.
Nos Estados Unidos da América, a Idade das Trevas foi caracterizada pela intensa descriminação dos idosos. Estes eram considerados inúteis, improdutivos, sem utilidade, passivos e mesmo decrépitos. Esta visão era universalizante retirando, por isso, a heterogeneidade característica deste grupo etário e apagando a complexidade que é o Homem. Tais caracterizações do último ciclo de vida do Ser humano relacionavam-se com valores como a individualidade e a produtividade. A noção de pessoa válida dependia, portanto, destes dois conceitos. A produtividade seria o valor através do qual, economicamente, uma pessoa produtiva era aquela que seria remunerada pelo que fazia, pelo trabalho desenvolvido, excluindo, desta forma, o idoso. Por outro lado, a individualidade baseava-se na noção de indivíduo livre, autónomo e independente, onde a pessoa válida seria capaz de fazer as suas próprias escolhas, decisões e estilos de vida. Mais uma vez, os idosos eram excluídos de tal valor devido a múltiplos factores nomeadamente físicos, psíquicos e económicos. De acordo com Bellah, Madsen, Sullivan, Swindler e Tipton (cit. in Gergen; Gergen, 2000), este valor ameaçava as relações íntimas, tanto em comunidade, como na família. Os valores individualistas exerciam um duplo constrangimento para os idosos: por um lado, caso o status individual do idoso fosse ameaçado, este tornar-se-ia vulnerável a doenças e incapacidades e/ou perdendo o controlo do seu corpo; por outro lado, aqueles que permaneciam com o seu estado de saúde e económico estável, preferiam ficar sozinhos, separados geograficamente dos seus entes queridos, preservando deste modo, a sua individualidade. Os idosos, como não eram considerados pessoas válidas na sociedade americana, perdiam a sua capacidade deliberativa e entravam num chamado processo de despessoalização. A “despessoalização” é a designação do processo de fragilização dessa mesma capacidade deliberativa e da autonomia moral. Assim, motivada pelo processo de substituição social e pelo processo de declínio fisiológico a que o ciclo de vida nos obriga, verifica-se uma fragilização evidente dos alicerces que sustentam a noção de pessoa moral, isto é, a autonomia, a capacidade deliberativa, a liberdade, a independência, entre outros (Viegas, 1995). O processo de substituição social refere-se à perda de papéis que outrora eram desempenhados pelo idoso e que, actualmente, são desempenhados pelas gerações mais novas. De acordo com esta cosmovisão, assistimos, desta forma, à glorificação dos jovens pela sua vivacidade, inteligência e beleza, e à desvalorização dos mais velhos. Essa desvalorização dos mais velhos implicava o declínio do idoso e a valorização de valores como a inovação, a produtividade, a mudança, a autonomia e a independência. Deste modo, e contextualizando com outros trabalhos apresentados, poderemos ver que a glorificação dos mais jovens e a desvalorização dos mais velhos, fez-se verificar pela afirmação de um novo ethos social (Viegas; Gomes, 2007). Este caracteriza-se por um conjunto de valores como a produtividade, a mudança, a inovação, a autonomia e a independência, que norteiam a visão do mundo prevalecente em dada realidade social e em determinado contexto histórico.
As concepções da velhice e do envelhecimento são fruto de uma cultura num determinado contexto histórico. Noutros contextos, outras interpretações alternativas e positivistas da velhice são bem aceites. Uma concepção completamente oposta à da sociedade americana, onde se verifica a assunção dos jovens e a desvalorização dos mais velhos, é a relatada pelo antropólogo Shweder (1998). De acordo com observações feitas sobre o povo Gussi do Oeste do Quénia, este constatou que o declínio, não era visto como algo cruel do envelhecimento, que deveria ser colocado de parte, mas pelo contrário, a pessoa passava a ser vista com respeito, obediência, prestígio e com estima social.
Assim, a visão da velhice e do envelhecimento como uma deterioração do funcionamento físico e psicológico provém de um domínio particular de valores, conjuntos de suposição ou mesmo de modos de falar. Deste modo, as concepções da velhice e do envelhecimento são construídas culturalmente.
Existe uma tendência bastante ampla nas ciências sociais e biológicas para a pesquisa do curso de vida naturalizado, ou seja, uma perspectiva de vida sob um desenvolvimento inato e com um progressivo declínio das capacidades humanas, tendências e propensões ao longo do curso de vida. Em 1988, Dannefer (cit. in Gergen; Gergen, 2000) definiu a naturalização como sendo um mecanismo efectivo de legitimação social, pois é difícil visualizar as concepções da velhice e do envelhecimento fora do domínio da natureza. Assim, quando afastamos o nosso pensamento de uma concepção da velhice naturalizada, conseguimos observar toda uma panóplia de transformações culturais. Esta naturalização é uma categoria cognitiva através da qual compreendemos e interpretamos o mundo, tendo implicações na marginalização, na criação de estereótipos, universalização e na legitimação da ordem social. A naturalização impede, assim, a visualização da multiplicidade de experiências e vivências de idade. Esta visão naturalizada da velhice como sendo algo eminentemente negativo assenta em duas suposições: por um lado, a suposição de que na velhice se perdem papéis sociais (perda de papéis sociais e de reconhecimento do idoso por parte da sociedade); por outro, a suposição de perda de controlo do corpo (ideia pela qual desenvolvemos o idoso como prisioneiro da sua própria biologia).
Mas, actualmente nos E.U.A., a época da Idade das Trevas regida por valores como a individualidade, a produtividade, a glorificação dos jovens, a desvalorização dos idosos e a naturalização da velhice foi sendo abandonada, segundo os autores. Inicia-se, assim, uma nova era de mudança, dando origem a uma nova concepção de envelhecimento. Tal facto deve-se fundamentalmente a três causas: factores demográficos, económicos e tecnológicos. Para além dos factores demográficos referidos no texto, nomeadamente, o crescimento da população acima dos 60 anos (devido à melhoria das condições sanitárias, à equidade no acesso aos serviços de saúde, à melhoria da alimentação), o aumento do estado de saúde e da longevidade, e o aumento da taxa de natalidade, há que ter em conta igualmente o aumento sucessivo do potencial poder político que a população idosa exerce na sociedade. Assim, a população idosa, para além de mais numerosa e activa, está a tornar-se igualmente organizada, sendo actualmente apoiada por uma Associação Americana de Pessoas Aposentadas reconhecida como uma das principais vozes para a vida política. Por sua vez, os factores económicos referem que o poder económico dos idosos tem seguido a tendência crescente do seu progressivo aumento. Em 1960, nos Estados Unidos, a pobreza registava-se maioritariamente entre a população idosa, mas com o aumento sucessivo do valor das reformas, este panorama tem vindo a ser alterado. Por último, o factor tecnológico também usufruiu de uma importância no desenvolvimento de uma nova concepção da velhice. As inovações que foram obtidas no século XX, tais como o telefone, o computador, a Internet e o GPS aplicados em contexto diário, permitem que o indivíduo esteja em permanente contacto com a sociedade e com o mundo em qualquer altura. Apesar de alguns idosos ainda não se encontrarem familiarizados com algumas destas inovações tecnológicas, começam lentamente a aperceber-se quais são os seus potenciais e vantagens, sendo promovido junto desta população a informação e a formação acerca destas inovações. De notar, igualmente, que este factor tecnológico permitiu não só reforçar relações antigas, como também criar novas relações. Mas ao analisar mais pormenorizadamente este factor, poderemos constatar que o seu acesso e domínio, assim como o factor económico, são altamente selectivos, o que pode originar desigualdade social nas experiências sociais do envelhecimento. Na perspectiva dos autores, estes factores proporcionaram a reconstrução do conceito de velhice. Nesta nova imagem, os idosos já não são vítimas de uma visão tão negativa, alterando o carácter de uma sociedade.
Como alguns padrões da sociedade alteraram-se, foi possível a construção de uma nova concepção de envelhecimento, que se baseia em três imagens distintas que têm diferentes implicações sociais e culturais para o futuro. Estas imagens são denominadas de “tipos ideais”, apenas porque são visões idealistas do processo de envelhecimento e, portanto, na realidade, elas não poderão ser tão bem delineadas como parecem. Estes modelos, apesar de concederem diferentes construções da velhice e do envelhecimento, podem ser conjugados para o usufruo das pessoas. Podemos distingui-los, entre construções que surgem do modelo da “Juventude eterna”, do modelo da “Capacitação” e do modelo “Epicurista”. Estes modelos, apresentados pelos autores, referem-se a questões fundamentais sobre as transformações sociais e culturais que afectam em particular as condições das pessoas idosas e as suas próprias experiências. O modelo da “Juventude eterna” é a forma mais profunda da reconstrução da velhice, derivando da duração binária do “velho/antigo” Vs “novo” e o privilegiar do último sobre o primeiro. Com o receio de não ser mais jovem, a imagem de corpo envelhecido é alvo de reconstrução, para que haja a manutenção de um corpo jovem. Não só aqueles que têm 60 ou mais anos, mas também os de 30 ou 40 anos, procuram iniciativas em crescente expansão como eliminar os cabelos brancos, combater a gordura e a celulite localizada, o cabelo grisalho, as varizes, os dentes amarelecidos, as rugas de expressão. Esta procura da manutenção do corpo esbelto é incentivada pelos múltiplos apoios que oferecem serviços a todos aqueles que queiram eliminar as suas marcas físicas do envelhecimento e que tenham um poder económico sustentável. Assim, esta re-descrição da velhice é conseguida através da reconstrução dos seus corpos e da negociação dos seus marcadores e ritmos de envelhecimento, passando assim a ser um processo em aberto, negociável e que pode ser retardado. Se as características do corpo forem os únicos parâmetros de reconstrução, o envelhecimento adia-se, mas não é re-descrito nem adquire novos significados. (Viegas; Gomes, 2007). Essa re-descrição passa, então, pelas dimensões mentais, comportamentais e relacionais.
Mas, nem todas as pessoas seguem este padrão orgulhando-se das marcas da sua vivência ao longo dos anos, exibindo-as com vaidade. Esta segunda tendência consiste numa glamorização da velhice, onde se assiste a um exibicionismo de vestígios e marcas de uma beleza tradicional para definir a idade. A título de exemplo da glamorização da velhice com efeitos bastante rentáveis no mundo do mercado é a venda mais atraente, por rostos mais velhos, de determinados produtos, como vinhos, diamantes e mesmo relógios. Em toda esta glamorização da velhice presente neste modelo há que ter em conta os efeitos patológicos do envelhecimento que produzem incapacidade, e portanto, não são possíveis de serem eliminados. Apenas os marcadores físicos que não apresentam, por si só, efeitos incapacitantes é que poderão ser alvo de uma reconstrução do corpo e de uma negociação de marcadores e ritmos de envelhecimento.
Outra concepção de envelhecimento que surge na Nova Era da Velhice é o modelo da “Capacitação”. Os investimentos culturais em valores, como a individualidade e a produtividade, presentes na noção de pessoa válida na Idade das Trevas, ameaçavam os idosos com perdas profundas na sua auto -estima: não tinham um controlo das suas próprias vidas, nem do seu mundo laboral. Com a saída do mercado de trabalho através da reforma, a pessoa iniciava o seu processo de despessoalização, perdendo o atributo de pessoa válida e passando a ser visto de um modo muito pernicioso. Contudo, o aumento do poder económico, e uma maior capacidade de organização entre as pessoas idosas, gerou movimentos de negação de uma imagem alternativa da velhice, e uma aceitação de uma imagem mais positivista, onde os idosos são mais activos, com dinheiro, e que continuam a querer aprender, daí o aumento exponencial das UTI’s. Uma das formas mais visíveis deste controlo sobre o corpo é o poder que se ganha sobre a morte de acordo com a vontade do idoso pois, tanto se tem em vista o adiamento da morte, como o precipitar da mesma, causando-a. No prolongamento da vida, existem variadíssimas estratégias para adiar a morte (programas de exercício físico, regimes nutricionais, produtos farmacêuticos), mas esta, é ainda inevitável e, portanto, não se consegue ter um domínio total sobre ela. Ao invés, a precipitação da morte (medo da dor, declínio biológico, consequências das doenças crónicas) pode-se verificar, por exemplo, através da eutanásia. Estes exemplos servem para repensar o modo como se vê o envelhecimento. Este modelo definido pelos Gergens baseia-se num conceito mais amplo de produtividade. Este não abarca unicamente o que é remunerável, mas também todas as actividades desde a doméstica, ao cuidar dos netos para que os filhos possam ir trabalhar. Contudo, com recursos económicos, disponibilidade e mesmo sentimentos de companheirismo pode-se gerar um reconhecimento pela sociedade.
Duas destas reconstruções visíveis são a da sabedoria figurada e a de testemunhas históricas. A população idosa carrega as suas histórias passadas, que são individuais, e que dizem respeito a cada um. Assistiram a marcos importantes da história, podendo contar o lado que não aparece, nem nos livros, nem nas revistas. Não só veiculam o seu testemunho pessoal do passado como também são símbolos de épocas importantes, acontecimentos, estilos de vida. Podem assumir, portanto, um novo papel social que mais nenhuma etapa da vida poderá assumi-lo, o de testemunhas históricas, mantendo ao mesmo tempo, o passado vivo através de recordações de memórias. Deste modo, este modelo proposto tem como objectivo contrariar os processos de despessoalização que afectam os idosos de maneiras diferenciadas, encontrando formas que possibilitem a emancipação dos indivíduos, colocando-os em arenas sociais significativas, seja mediante o trabalho (ex. segunda carreira), seja através do voluntariado, permitindo o envolvimento activo na comunidade, seja através do lazer ou do consumo (Viegas; Gomes, 2007). Para tal, é necessário que se verifique o alargamento do conceito de produtividade para além da esfera do trabalho remunerado. Por fim, podemos constatar que o modelo da “capacitação” relaciona-se com o ethos do novo, pois os idosos estando actualizados pelas TIC e integrados socialmente, estarão a enfatizar qualidades que são descritas na juventude como a força, a vitalidade, a produtividade, sendo colocados numa esfera social de identidade e desempenhando valores morais que caracterizam o ethos do novo.
Por fim, o último modelo de reconstrução da concepção da velhice é designado por modelo do “Epicurismo”, onde o prazer é visto como a sua prioridade. Devido, em parte, ao aumento do poder económico, à saúde biológica e à tecnologia, os idosos podem aproveitar as horas vagas para as mais variadas actividades. Assim, actividades como viagens, cruzeiros, teatros, concertos, golfe, ténis, pesca, mergulho, barco à vela, cartas, malha, programas específicos para idosos, retiros, e mesmo meditação podem ser usufruídas pela população idosa. Mas, para que isto seja possível é também necessário um bom suporte económico, uma boa saúde física e mental e disponibilidade, não estando, portanto, acessível a qualquer pessoa. Relacionando o ethos do novo com este modelo, podemos verificar que o idoso que segue esta reconstrução identitária, participa nas grandes tendências da sociedade (consumismo, actividades lúdicas, aproximação do jovem com aventuras), aproximando-se, desta forma, da sociedade.
Assim, podemos ver que estes três modelos apresentados pelos autores são formas de re-descrição do envelhecimento num ethos contemporâneo (visão do mundo prevalecente), onde recupera algumas das tradições renascentistas: a Revalorização da longevidade saudável (Viegas; Gomes, 2007). Apesar destes modelos apresentados pelos Gergens para um envelhecimento activo não se encontrarem ao dispor de todos, podemos verificar que contribuem para uma desconstrução de assunções e imagens negativas sobre o envelhecimento e a velhice.
Ao longo da análise do texto, verificou-se, inicialmente, a visão dos idosos pela sociedade como sendo decrépita e inútil, e a importância que os valores culturais, condições económicas e a vida institucional tiveram na Idade das Trevas. Contudo, esta mesma época foi um período de transformação da velhice derivada de uma matriz cultural da Idade das Trevas. Esta idade, actualmente, está a acabar e uma nova Era surgiu onde se dá a importância a novos valores, actividades com sentido e novos conceitos de idade.

CONCLUSÃO

A população envelhecida tem vindo a sofrer múltiplas alterações, não só devido a factores demográficos, como também económicos e tecnológicos, que lhes permitiram integrar-se na comunidade sem serem alvo de estereótipos e marginalizações. Nesta nova concepção do envelhecimento, presente na Nova Era da Velhice, surge a reconstrução identitária através do prazer nas actividades, do auto-controlo na vida, de uma jovialidade da velhice, do reconhecimento dos idosos como sendo testemunhos históricos que vivenciaram marcos importantes na história e valores da sociedade, e do usufruo da sabedoria dos quais os idosos são portadores, podendo transmiti-la às gerações precedentes. Apesar destes modelos apresentados pelos autores Kenneth J. Gergen e Mary M. Gergen serem um ponto fulcral para uma mudança social e cultural da sociedade americana, não consideram, contudo, as influências negativas que estes possam causar, como a marginalização e a descriminação. Para além disso, como refere Martha B. Holstein (cit. in Holstein, 2000) é pouco notório o afastamento dos valores dominantes característicos da “Idade das Trevas”, argumentando, assim, que o surgimento da Nova Era da Velhice é uma hipótese para um envelhecimento futuro, aparecendo como uma forma de mudança da sociedade e dos valores que lhes estão associados.

BIBLIOGRAFIA

GERGEN, K. J.; GERGEN, M., – The New Aging: Self Construction and Social Values. In K.W. Schaie; J. Hendricks (org.), “Evolution of the Aging Self. The social impact on the aging process”. NY: Springer Publishing Company, Inc (2000).
HOLSTEIN, Martha B.,– The New Aging: imagining alternative futures. In K.W. Schaie; J. Hendricks (org.), “Evolution of the Aging Self. The social impact on the aging process”. NY: Springer Publishing Company, Inc (2000).
VIEGAS, Susana, – «Enigmas: A Experiência Social do Envelhecimento»; Coimbra: Universidade de Coimbra. (1995).
VIEGAS, Susana; Gomes, Catarina Antunes, – As imagens conflituantes da velhice. In Susana de Matos Viegas; Catarina Antunes Gomes, «A identidade na velhice». Porto: Ambar (2007).
VIEGAS, Susana; Gomes, Catarina Antunes, – Envelhecimento Activo e a modalidade heróica de envelhecimento: ressonâncias e dissonâncias. In Susana de Matos Viegas; Catarina Antunes Gomes, «A identidade na velhice». Porto: Ambar (2007).

quarta-feira, 24 de março de 2010

ESPIRITUALIDADE E SUA INFLUÊNCIA NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

INTRODUÇÃO
O processo de transição demográfica em Portugal e um pouco por todos os países desenvolvidos caracteriza-se pelo crescimento exponencial da população adulta e idosa, alterando a pirâmide populacional dos seus países. Actualmente o grupo etário dos idosos lidera o crescimento, facto que, até aos anos 60, este era idêntico nos vários grupos etários. Segundo o INE, a evolução registada entre 2004 e 2005 na estrutura etária da população residente em Portugal (incluindo a região autónoma da Madeira e dos Açores) revela o acentuar do envelhecimento da população, com a relação entre a população idosa e a população jovem a atingir em 2005, os 110, ou seja, mais um idoso por cada jovem em relação ao ano anterior. Este comportamento do índice de envelhecimento advém da diminuição do número de jovens e do aumento do número de idosos, tendo em consideração o decréscimo da taxa de natalidade e o aumento da taxa de emigração. A transição que vivenciamos foi acompanhada lentamente por uma maior qualidade de vida devido à melhoria das condições sanitárias, médicas, alimentares, assim como a apropriada inserção das pessoas no mercado de trabalho.
O idoso actual é social e culturalmente mais exigente que o idoso de outros tempos, onde a própria sociedade não exigia tanto uns dos outros. Assim para estabelecer uma “ponte de amizade” e suporte emocional ao idoso, este refugia-se em toda a esperança que o ajudou e continua a ajudar a potenciá-lo. A crença numa religião ou a fé e mesmo a prática da espiritualidade, não são simplesmente uma “dimensão do mágico” que substituem a responsabilidade humana. Na pessoa idosa, com todo o riquíssimo património cultural adquirido com as suas experiências da vida e sabedoria, o futuro adivinha-lhes “incerto”, levantando-se à procura incessante de segurança, disponível na sua orientação espiritual e/ou religiosa.
Com este trabalho pretendo portanto alertar para o benefício de uma orientação espiritual no desenvolvimento de um processo de envelhecimento enriquecedor. Assim os objectivos traçados que combinam o mundo espiritual e o mundo científico são essencialmente: perceber o fenómeno religioso e espiritual como forma de resposta às questões existenciais do Homem, sensibilizar para a importância da religião e/ou da espiritualidade enquanto paradigmas incontornáveis; procurar perceber a mentalidade do idoso face à religião e à orientação espiritual e compreender os benefícios da prática da espiritualidade em contexto hospitalar. Desta forma, tentarei alertar para a necessidade de uma prática holística de cuidados de uma equipa multidisciplinar, tendo em conta as diversas dimensões que nos constituem como indivíduos (biológico, social, psicológico e espiritual) e não ter em conta só a parte biológica que se multiplica em práticas de saúde.

DESENVOLVIMENTO

PARTE I: A ESPIRITUALIDADE E A RELIGIÃO

Abordagem ao conceito de Religião e Espiritualidade
O termo “religião” e “espiritualidade” são frequentemente utilizados, sem razão, como sinónimos. Convém, pois distinguir estas duas noções. Desde sempre que a religião tomou a sua influência na esfera social, quer ao nível pessoal como também público, tanto por existência ou inexistência. De facto, as características de uma sociedade que apresente uma qualquer forma de adoração do divino divergem fundamentalmente daquela que não possua religião. Actualmente, existem muitas religiões e mesmo seitas que promovem a elevação e a pacificação do Ser mais intrínseco da pessoa, influenciando a vida social e política. Os conflitos étnicos, por exemplo, geralmente têm conotação religiosa. Na Irlanda do Norte a ruptura entre católicos e protestantes não foi ainda recomposta e uma guerra pode ser também legitimada em nome de uma verdade religiosa. Por outro lado, são as religiões que concentram na sua maioria, entre os seus adeptos, verdadeiros heróis modernos na defesa da vida, na busca dos direitos humanos e na promoção da paz entre os povos.
Apesar do avanço da ciência, da técnica, da robótica, da informática, e de muitas outras áreas, continuamos a questionar acerca dos benefícios da crença em algo superior, num Deus ou na prática espiritual como seres multi-facetados que somos. A religião não é apenas um fenómeno individual, mas também um fenómeno social e cultural, que orienta a sociedade segundo as directrizes por ela traçadas, representando as respostas que a Humanidade tentou dar face às perguntas, através de um conjunto de práticas e de crenças.
Se algumas pessoas, no limiar da morte, encontram um grande amparo na fé religiosa, se as orações e os sacramentos ajudam, a verdade é que nos deparamos muitas que não têm religião, ou que vivem uma relação difícil, cheia de cólera ou de culpabilidade, com a sua religião de infância. Estas pessoas têm, não obstante, uma espiritualidade.
Assim como a religião, também a dimensão espiritual é uma dimensão importante na existência do Ser humano que dá abrigo às suas mudanças interiores, permitindo o aprofundar do seu sentido de vida. Esta pertence a qualquer Ser que se questiona perante a simples realidade da sua existência. Ela tange a sua relação com os valores que o transcendem, seja qual for o nome que lhes seja atribuído. Desde que os seres humanos apareceram na face da Terra e começaram a organizar-se na sociedade, que algum indivíduo do grupo assumia as funções de xamã ou feiticeiro. Durante muito tempo, espírito e corpo eram vistos como uma unidade, e esses líderes espirituais ensinavam que cuidar do espírito era a parte mais importante do tratamento.
De acordo com a Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos da UNESCO, de 2005, “a identidade de um indivíduo inclui dimensões biológicas, psicológicas, sociais, culturais e espirituais”. Também a espiritualidade constrói-se e relaciona-se em contextos socioculturais e históricos, estruturando e atribuindo significado a valores, comportamentos, experiências humanas, e por vezes materializa-se na prática de um credo religioso. Esta dimensão é considerada por muitos autores e mesmo pelo Ministério da Saúde como parte integrante do conceito de saúde, sendo essencial na prática holística de cuidados. De facto, a dimensão espiritual é descrita como sendo relevante na atribuição de significado ao sofrimento decorrente de uma doença crónica e também como recurso de esperança face às mudanças no estado de saúde.
A participação religiosa e a espiritualidade parecem relacionar-se assim com uma melhor saúde, uma expectativa de vida mais prolongada, uma melhor aceitação da morte e dos lutos, uma diminuição do nível de ansiedade, assim como, uma diminuição de tendências depressivas e suicidas. De salientar que apesar do conceito “religião” e “espiritualidade” serem diferentes, a religião pode ser um caminho para uma espiritualidade e uma boa saúde, mas isso não é uma regra. Assim, a adesão a uma crença religiosa pode ser uma forma de vivermos a nossa espiritualidade, mas também podemos viver a nossa espiritualidade sem religião. Depende de muitos factores, inclusive do nível cultural e da capacidade de se concentrar nas actividades espirituais.

Religião e Fé
As raízes da religião encontram-se na razão humana simplesmente. Ela faz apelo às outras fontes. Oriunda do verbo latino religare, que significa atar, unir, a palavra religião significa o acto de relegar o mundo visível com o mundo invisível, onde estão forças poderosas e misteriosas. A religião pode também ligar os seres humanos entre si, num grupo, propondo-lhes leis e valores comuns, dando-lhes um modo de crer e de agir.
É necessário, ainda, que se distinga religião de fé. A fé é a crença e a aceitação de um Ser transcendente e sobrenatural. Todavia, existem religiões que não se baseiam numa fé, como é o caso do budismo antigo. Portanto, pode haver religião sem fé, mas uma fé quase sempre se expressa num tipo de religião ou de religiões. Sob o ponto de vista de Immanuel Kant, aduzindo ao pensamento humano, afirma a existência de duas formas de religião bem definidas, alicerçadas nos interesses dos fiéis e de seus líderes: a religião da petição de favor organiza-se visando favores da divindade, não possuindo dinâmica engrandecedora para a criatura; Segundo Kant, a partir dessa modalidade religiosa, surge a fé dogmática, na qual não se exige a reflexão do fiel, mas a sua adequação mental, tendo como moldes as "verdades" estabelecidas por seus condutores; Por outro lado, a religião moral que prioriza a boa condução na vida, prescrevendo o indivíduo a tornar-se melhor. Nesse campo religioso, de antemão, se concebe um Deus que auxilia, mas ao fiel cabe empreender esforços para fazer-se merecedor da ajuda celeste. Fruto da religião moral, a fé que reflecte opõe-se à fé dogmática, prezando o Ser na sua capacidade de discernir, nunca ferindo o seu livre arbítrio, facultando-lhe o crescimento e a libertação perante as amarras da vida.

Benefícios da Espiritualidade
No fim do século XVIII começa a surgir a ciência médica, que cria uma divisão entre aquilo a que se chama de crendices e actividades “não científicas” e as explicações racionais e exclusivamente materialistas do novo conhecimento. À medida que a medicina evoluiu como ciência procurou distanciar-se sucessivamente do passado comum com a espiritualidade. Só nos últimos 10 anos é que surgiram evidências que os primeiros médicos tinham razão.
De acordo com Venâncio Pereira Dantas Filho, médico neurocirurgião, a espiritualidade envolve desde as concepções e convicções religiosas relacionadas com a vida, a doença e a morte, bem como os rituais associados, até a visão que valoriza a integridade da pessoa incluindo os seus aspectos biológicos, psicológicos, sociais e espirituais. “ Entende-se hoje cada vez mais que os problemas existenciais, que têm como pano de fundo a questão do sentido da vida, portanto, questões também de ordem espiritual e religiosa, estão associados senão com todas, pelo menos com a grande maioria das doenças psicossomáticas que acometem as pessoas e todo o mundo” afirma Dantas Filho. Aqueles que reconhecem a espiritualidade como um esforço humano para auxiliar o tratamento, sugerem que as evidencias dos estudos científicos recentes são interessantes o suficiente para justificar novas pesquisas. “ Os efeitos da espiritualidade sobre a saúde podem envolver mecanismos fisiológicos úteis além dos nossos conhecimentos actuais que, com o tempo, possam vir a ser entendidos”, acredita o autor acima citado. Muitas proposições terapêuticas para o tratamento de doenças já incluem a espiritualidade, particularmente na forma da meditação, e também como tratamento adjuvante ou alternativo para, pelo menos, diminuir a ansiedade, aliviar preocupações, dar conforto e motivação, tanto a nível domiciliar como hospitalar. A maioria dos estudos realizados acerca desta temática tem mostrado que também tem influência na diminuição de tendências depressivas, no aumento do sucesso de fertilização “in vitro”, na melhoria do curso clínico de doenças crónicas como diabetes e artrite reumatóide, na expectativa de vida prolongada, na auto-estima, no apoio emocional, esperança, bem-estar psicológico e interpessoal, ou mesmo no auxílio da recuperação de pacientes com dependência química, como por exemplo, casos de alcoolismo.
“Conhecer melhor as convicções das pessoas inclusive as de cunho religioso, fornecem mais recursos para lidarmos com novas situações que deparamos frequentemente e podem-se tornar bastante conflituosas”, completa ainda o médico neurocirurgião.

PARTE II: OS IDOSOS FACE À ORIENTAÇÃO ESPIRITUAL

Os carismas da velhice
O grupo formado por aqueles chamados da “terceira idade” abrange uma extensa faixa da população mundial: pessoas que saem dos ciclos de produção, tendo ainda grandes meios e capacidades de participação no bem comum. Ao numeroso grupo dos “Young old” (“jovens anciãos”, como são definidos nas novas categorias da velhice, aqueles cuja idade vai dos 65 aos 75 anos) vem-se juntar o dos “Oldest old” (“anciãos mais velhos”, com mais de 75 anos) e uma quarta idade cujo número tem vindo a crescer sucessivamente.
O aumento da esperança média de vida, por um lado, e a diminuição taxa de natalidade por outro, causaram uma mudança demográfica, invertendo a pirâmide das idades, tal como se apresentam à cinquenta anos atrás: o número de anciãos em constante aumento e o dos jovens em diminuição contínua. A construção da desejada sociedade de múltiplas gerações só resultará se tiver, por fundamento, o respeito pela vida, em todas as suas fases. A presença de tantos anciãos no mundo contemporâneo é um dom, uma riqueza humana e espiritual. É um sinal dos tempos que, se for plenamente compreendido e acolhido, pode ajudar o Homem de hoje a reencontrar o sentido da vida que ultrapassa os significados que lhe são atribuídos pelo mercado, pelo Estado e pela mentalidade dominante.
A velhice é uma etapa da vida, que “oferece novas oportunidades de crescimento e de empenhamento”. A «gratuidade», «memória», «experiência», «interdependência» e «uma visão mais completa da vida» são os carismas da velhice, apontados por D. António Sousa Braga, que a sociedade deveria aproveitar. A entrada na terceira idade é “um privilégio, um dom, que importa fazer frutificar para bem de toda a comunidade”. Na medida em que, com o aumento da vida média, cresce a faixa dos anciãos, “é sempre urgente promover esta cultura de uma ancianidade acolhida e valorizada, não marginalizada”. E avança: “o ideal é que o ancião fique na família, com a garantia de ajudas sociais eficazes, relativamente às necessidades crescentes, que supõem a idade e a doença”. A terceira idade também é a idade da simplicidade e da contemplação. Os valores afectivos, morais e religiosos vividos pelos anciãos são um recurso indispensável para o equilíbrio das sociedades, das famílias e das pessoas.
Os idosos e a Orientação Espiritual
É normal termos medo da morte, mas enquanto que algumas pessoas, principalmente aquelas que estão mais próximas desta etapa, ficam muito ansiosas, outras não. De acordo com Goethe, “na mocidade o Ser humano vive através do corpo e, na velhice, vive, contra o corpo”. Com esta citação, podemos ver que potenciais e forças escondidas no Homem só começam a aparecer e a desenvolver-se quando as energias corporais começam a declinar. Uma das experiências mais encorajadoras e felizes nos idosos é a consciência exponencial no triunfo do espírito, ainda quando a força física os abandone. Nas últimas décadas foi dado um especial relevo ao Ser humano como um todo, incluindo a vertente biológica e psicológica, juntando as várias vertentes como partes de um mesmo processo. Mais recentemente deu-se conta de que as dimensões humanas necessitam de uma dimensão espiritual, não necessariamente de uma dimensão religiosa mas de uma explicação para o Ser humano, uma percepção de que está inserido em algo mais amplo que o simples quotidiano. Quanto mais satisfatória for a resposta que o indivíduo tem a essa busca espiritual, mais se sentirá tranquilo ao enfrentar a morte. Todo o Homem confrontado com a iminência da morte pode ser levado a colocar a si mesmo questões de ordem espiritual, nomeadamente o sentido da sua existência.
De acordo com alguns especialistas, de uma maneira geral as pessoas interpretam todos os acontecimentos da sua vida sob uma visão espiritual e conhecer e respeitar esta interpretação é um grande auxílio para o doente e para o profissional que o assiste. Por isso, assistir espiritualmente bem o paciente é de grande contribuição para a sua recuperação ou tranquilidade.
Desta forma podemos inferir algumas características para uma espiritualidade na terceira idade: a assistência religiosa de forma a ajudar a descobrir os valores humano-religiosos da sua idade e a viver esse tempo com serenidade e com dignidade; o optimismo e o realismo onde podem encarar a realidade com clareza, coragem e esperança; a contemplação onde se faz uma caminhada interior de reflexão; a celebração das alegrias que a fase do envelhecimento atravessa; a autocompreensão de forma a aceitar e ter a consciência do processo natural da vida; e a socialização, ou seja, o relacionamento com as várias relações construídas ao longo da vida.
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:
  • Spirituality and aging: the health implications of religious belief and practice
  • Spirituality and clinical care
  • Spirituality, Rehabilitation, and Aging: a Literature Review
  • Effect of spiritual well-being on end-of-life despair in terminally-ill cancer patients
  • Construção de Uma Escala de Avaliação de Espiritualidade em Contextos de Saúde
  • Is there a process of spiritual change or development associated with ageing? A critical review of research

domingo, 26 de abril de 2009

PRÍNCIPIOS DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O IDOSO: DIREITOS DOS IDOSOS

Resolução 46/91 – Aprovada na Assembleia Geral das Nações Unidas 16/12/1991

INDEPENDÊNCIA
1. Ter acesso à alimentação, à água, à habitação, ao vestuário, à saúde, a apoio familiar e comunitário.
2. Ter oportunidade de trabalhar ou ter acesso a outras formas de geração de rendimentos.
3. Poder determinar em que momento se deve afastar do mercado de trabalho.
4. Ter acesso à educação permanente e a programas de qualificação e requalificação profissional.
5. Poder viver em ambientes seguros adaptáveis à sua preferência pessoal, que sejam passíveis de mudanças.
6. Poder viver em sua casa pelo tempo que for viável.

PARTICIPAÇÃO
1. Permanecer integrado na sociedade, participar activamente na formulação e implementação de políticas que afectam directamente o seu bem-estar e transmitir aos mais jovens conhecimentos e habilidades.
2. Aproveitar as oportunidades para prestar serviços à comunidade, trabalhando como voluntário, de acordo com seus interesses e capacidades.
3. Poder formar movimentos ou associações de idosos.

ASSISTÊNCIA
1. Beneficiar da assistência e protecção da família e da comunidade, de acordo com os seus valores culturais.
2. Ter acesso à assistência médica para manter ou adquirir o bem-estar físico, mental e emocional, prevenindo a incidência de doenças.
3. Ter acesso a meios apropriados de atenção institucional que lhe proporcionem protecção, reabilitação, estimulação mental e desenvolvimento social, num ambiente humano e seguro.
4. Ter acesso a serviços sociais e jurídicos que lhe assegurem melhores níveis de autonomia, protecção e assistência.
5. Desfrutar os direitos e liberdades fundamentais, quando residente em instituições que lhe proporcionem os cuidados necessários, respeitando-o na sua dignidade, crença e intimidade. Deve desfrutar ainda do direito de tomar decisões quanto à assistência prestada pela instituição e à qualidade da sua vida.

AUTO-REALIZAÇÃO
1. Aproveitar as oportunidades para o total desenvolvimento das suas potencialidades.
2. Ter acesso aos recursos educacionais, culturais, espirituais e de lazer da sociedade.

DIGNIDADE
1. Poder viver com dignidade e segurança, sem ser objecto de exploração e maus-tratos físicos e/ou mentais.
2. Ser tratado com justiça, independentemente da idade, sexo, raça, etnia, deficiências, condições económicas ou outros factores.

quinta-feira, 19 de março de 2009

QUEDAS NOS IDOSOS

Como profissionais de saúde em permanente contacto com os utentes, devemos acompanhar os seus estados de saúde de forma a detectar desvios de carácter patológico e os factores de risco para cada utente. Tendo sempre em mente o lema “Prevenção de doenças, Promovendo a saúde”, é aqui referido a importância da detecção precoce dos variados factores de risco de quedas, mediante o conhecimento dos mesmos, podendo assim intervir na sua diminuição e/ou eliminação. É assim exposto os diversos factores de risco possíveis de controlo ou modificação e, também, aqueles que não são possíveis de intervenção como, por exemplo, as alterações que acompanham o envelhecimento. É igualmente mencionado as formas de prevenção, avaliação e intervenção de quedas.

1. DEFINIÇÃO E ENQUADRAMENTO
As quedas são um assunto escondido e pouco relevado, não lhe sendo atribuído a devida importância e significado.
Uma queda é um evento que resulta no facto de uma pessoa inadvertidamente ficar colocada no chão com ou sem perda de consciência ou outra lesão, sendo excluídas situações directamente relacionadas com outros eventos de maior importância, tais como, individuais (epilepsia, AVC) e/ ou ambientais (tremor de terra).
Quando este evento ocorre em pessoas idosas o risco é maior, pois são muito mais propensas a fracturas porque os ossos já são mais porosos e frágeis. Estas situações provocam na pessoa idosa um medo crescente de cair, não só pelo risco que acarreta mas pelos condicionalismos em actividades diárias, declínio da auto-estima e comprometimento do nível de independência. As quedas e o medo que se gera poderão provocar isolamento social, um declínio agravado do estado funcional aumentado pela restrição física “por segurança” e ansiedade e estados depressivos.
Em idosos que residem nas suas casas, cerca de um terço das pessoas caem pelo menos uma vez por ano; este número aumenta em idosos institucionalizados, isto porque nas instituições as pessoas são mais dependentes e mais frágeis. Contudo, isso não implica que não possamos travar estas ocorrências.
É, desta forma, necessário decifrar os vários factores para que se possa intervir de modo mais abrangente e personalizado.

2. ETIOLOGIA
De entre as variadas causas, podemos agrupá-las em três grandes áreas: factores intrínsecos, factores extrínsecos e, por fim, factores ambientais. Dos vários factores que irão ser mencionados é necessário, igualmente, ter a noção que estes não actuam isolados, pois uma queda é multi-factorial, sofrendo a interferência dos vários factores em consonância.

2.1 Factores Intrínsecos - causas inerentes à condição física:

§ Redução da saúde em geral: diminuição da mobilidade, da actividade física e historial de quedas.

§ Patologias: Parkinson, incontinência, demência e/ou artrites constituem factores para uma maior propensão de quedas.

§ Problemas músculo-esqueléticos e neuromusculares: fraqueza muscular principalmente nas extremidades, limitações de movimentos, problemas nos pés como calosidades e deformações e alterações articulares dolorosas.

§ Alterações sensoriais: diminuição da percepção e da acuidade visual. À medida que se envelhece, a sensibilidade nos pés também pode vir a diminuir impedindo que haja uma devida percepção de um obstáculo ao ser pisado, por exemplo. Em relação à diminuição da acuidade visual esta deve-se ao declínio da função dos olhos que ajudam os indivíduos a perceber e a evitar os perigos.

§ Alterações psicológicas/cognitivas: desorientação, demência, confusão e alterações da memória.

§ Alterações da marcha e equilíbrio: anomalias na marcha, diminuição da velocidade, balanço postural, diminuição do equilíbrio dinâmico e diminuição de equilíbrio sobre uma perna. Como o corpo começa a não reagir tão bem às mudanças de posição (exemplo levante repentino) levando à diminuição excessiva do fluxo sanguíneo e da pressão arterial (hipotensão arterial), pode, deste modo, aumentar o risco de queda.

Todos os factores mencionados interferem, assim, de um modo mais significativo, não só aumentam o risco de quedas como, também, interferem no modo como a pessoa reage aos perigos e às situações de risco.

2.2 Factores Extrínsecos:

§ Medicação ou poli-medicação: alguns fármacos podem favorecer as quedas, nomeadamente, os analgésicos opiáceos, os ansioliticos, os anti-depressivos, os anti-hipertensivos, os psicotrópicos, os sedativos, o narcótico, os diuréticos, pois podem causar a diminuição do estado de alerta e da percepção, causar hipotensão e/ou fadiga. É igualmente mais propício que as medicações sejam a causa de uma queda aquando o início do tratamento ou quando é alterada a posologia.

§ Actividades de risco: transferências para/de uma cama ou para/de uma cadeira ou ao subir e descer escadas, pois são movimentos que implicam a mudança do centro gravítico e que com o envelhecimento a capacidade de adaptação a estas mudanças começa a declinar. Alguns fármacos têm interacções que podem aumentar o risco de quedas. No meio rural, por exemplo, existem actividades como subir a uma árvore ou arranjar um telhado que proporciona um maior risco de quedas.

2.3 Factores Ambientais:

§ Iluminação inadequada e/ou insuficiente;
§ Tapetes e pavimentos soltos;
§ Cabos eléctricos ou extensões ou objectos que se encontram em zonas de passagem;
§ Passeios e bermas irregulares;
§ Pavimentos escorregadios, molhados ou irregulares;
§ Falta de equipamentos de segurança (corrimões, barras de apoio);
§ Calçado e roupa inadequado;
§ Inadequação de dispositivos de apoio.
Estes factores ambientais podem ocorrer quando o perigo não é percepcionado ou não se reage de forma rápida e eficaz.

3. SINTOMATOLOGIA
Muitas vezes, antes de cair, uma pessoa não apresenta nenhum sintoma resultante da condição física em que se encontra, apenas há sintomas quando está presente uma condição física debilitante. De entre estes sintomas é de destacar tonturas, estonteamentos ou palpitações (batimentos cardíacos violentos, irregulares e rápidos).
Depois de uma queda é vulgar que se sinta dor porque as lesões são frequentes. Mais de metade destes acidentes causam, pelo menos, uma lesão leve, como uma contusão, uma entorse, ou mesmo uma distensão muscular. As lesões mais graves que poderão ocorrer podem incluir fracturas ósseas, ruptura de ligamentos, feridas profundas e lesões nos órgãos. Algumas quedas provocam, ainda, a perda de consciência ou traumatismos cranianos.
Por todas as razões mencionadas, as quedas podem piorar a qualidade de vida das pessoas, não só ao nível físico mas também ao nível psicológico, pois desenvolvem nos idosos o medo de cair novamente e começam a privar-se de si e das actividades que costumavam realizar. Ao diminuir a actividade começa, também, a declinar o contacto social pois sair de casa começa a ser percepcionado como um perigo, obrigando o idoso a cingir-se à sua permanência em casa ou à institucionalização prévia.

4. PREVENÇÃO
Quando é interpretado que a melhor prevenção de quedas é evitar as causas das mesmas, a pessoa submete-se a uma restrição de actividades, implicando progressivamente uma rigidez articular e um declínio da força muscular, e consequentemente uma maior propensão a quedas e a perda de independência.
Assim, é necessário implementar medidas preventivas, pelos profissionais, aos utentes com uma maior risco de vir a cair, mediante a elaboração de um historial clínico mais abrangente com a avaliação dos diversos factores de quedas.
A prevenção passa por uma prevenção primária, com medidas para pessoas que não tenham caído, e por uma prevenção secundária, com medidas para evitar novas quedas em idosos que já possuem um historial de quedas anterior.
As pessoas de mais idade podem fazer várias coisas simples, práticas e essenciais para reduzir o risco de quedas, tais como:

§ Exercício físico regular: treino com pesos, treino de resistência, exercícios de equilíbrio para fortalecer os músculos e a capacidade de resistência. Irá auxiliar na manutenção de uma postura correcta, uma maior mobilização de articulações, uma estimulação cárdio-respiratória e numa melhoria do estado de alerta.

§ Prevenção de osteoporose: alimentação rica em cálcio, equilibrada e adequada para cada indivíduo e para as suas necessidades.

§ Diminuir o aporte de líquidos ao fim da tarde: de modo a que o idoso não tenha que se levantar a meio da noite.

§ Utilizar calçado adequado: com solas firmes, não deslizantes e tacões baixos.

§ Levantar-se lentamente e esperar um pouco antes de começar a movimentar-se para que o fluxo sanguíneo possa ser restabelecido, prevenindo as vertigens.

§ Quando a pessoa sente tonturas quando está em pé (pressão arterial baixa) é útil usar meias de suporte.

§ Revisão da medicação e sua posologia pelo médico para evitar polimedicação e avaliar se há algum medicamento que pode aumentar o risco de queda, assim como tentar conciliar a hora do dia da administração dos medicamentos com os efeitos que estes acarretam (administrar diuréticos pela manhã).

§ Tratamento e/ou retardamento de problemas neuromusculares, músculo-esqueléticos ou sensoriais, como a acuidade visual, usando graduação adequada às dioptrias, sendo útil o tratamento ao glaucoma e às cataratas quando possível.

§ Reduzir os riscos ambientais, como eliminar tapetes soltos e optar por pisos e tapetes antiderrapantes, adequar a iluminação ao compartimento e à hora do dia, colocar barras de apoio nas casas de banho, corrimões resistentes, assentos de sanitas mais altos, degraus não resvaladiços, calçado e roupa adequados, utilização de dispositivos de segurança como imobilizadores e barras laterais nas camas dos utentes, utilização correcta de dispositivos de apoio para uma melhor base de sustentação, utilizar campainha de chamada para qualquer emergência, disposição do mobiliário correcta e segura para permitir a circulação livre sem colocar em perigo os utentes, manter tudo arrumado e ordenado. Num quarto, por exemplo, a cama deve ser alta e larga, a mesa-de-cabeceira fixa ao chão a ou à parede e com esquinas redondas, deve existir uma cadeira ou poltrona no quarto (para se calçar por exemplo), interruptores ao alcance das mãos quando estiver deitado e prateleiras nem muito altas nem muito baixas. A casa de banho deverá ter piso anti-derrapante, barras de apoio na banheira, poliban, e paredes próximas da sanita e dever-se-á evitar prateleiras de vidro e superfícies cortantes.


Como até agora se referiu a prevenção poderia auxiliar, em muito, trazendo benefícios não só na redução de lesões, na diminuição de medo de cair e dos gastos nos serviços de saúde, mas também traria um aumento exponencial da segurança, da qualidade de vida e da auto-estima. Daí ser essencial promover a prevenção de quedas e reduzir os factores possíveis de modificar.

5. AVALIAÇÃO
Às pessoas deve ser perguntado quantas vezes num ano caíram:

§ Se nunca caiu deverá ser implementado um programa de exercícios e treino de esforço, a fim de evitar posteriores quedas.

§ Se caiu uma vez, deve ser verificado pelo profissional responsável problemas de equilíbrio e marcha. Se não for identificado qualquer problema desta ordem é necessário implementar um programa de exercícios e treino de esforço, a fim de evitar posteriores quedas. Se houver alterações no equilíbrio e na marcha deve-se proceder à verificação do comprometimento articular, problemas cardiovasculares, problemas neurológicos, historial médico e medicamentos, alterações da visão para identificar possíveis causas das alterações verificadas.

§ Se há quedas recorrentes deve ser avaliado o comprometimento articular, problemas cardiovasculares, problemas neurológicos, historial médico e medicamentos, alterações da visão, para uma posterior intervenção.

6. INTERVENÇÃO
Se apesar de se aplicar estas medidas de prevenção, ocorrer uma queda em contexto institucional ou domiciliar, deve-se actuar imediatamente e diminuir o tempo de espera por ajuda. É necessário ter-se em atenção o estado do utente e as consequências da quedas, chamar um médico ou enfermeiro mesmo que não haja sintomas dolorosos, não mexer nem mobilizar caso haja suspeita de fractura, realizar o tratamento adequado e/ ou manter a supervisão em função da lesão que se produziu, e registar a queda em contexto institucional e as consequências no processo individual do utente.
Ao nível das intervenções, aquando uma queda deve ser verificado possíveis alterações medicamentos, identificar e modificar os perigos ambientais, tratar a hipotensão postural e perturbações cardiovasculares e implementar medidas de segurança e de intervenção.

segunda-feira, 2 de março de 2009

GERONTOLOGIA E COMPETÊNCIAS DOS GERONTÓLOGOS

Gerontologia...
"Ciência que estuda o processo de envelhecimento do Homem, isto é, investiga as modificações morfológicas, fisiológicas, psicológicas e sociais consecutivas à acção do tempo no organismo humano, independentemente de qualquer fenómeno patológico" (R. Fontaine, 2000; Z. Nicolas, 1981).
É, assim, uma disciplina científica cujo objectivo é o estudo do fenómeno do envelhecimento como parte do desenvolvimento do ciclo vital do crescimento à velhice. A Gerontologia tem diferentes áreas de conhecimento: problemas sociais e económicos devido ao aumento no número de idosos na população, aspectos psicológicos e biológicos, as bases fisiológicas do envelhecimento e os aspectos biológicos gerais do envelhecimento.
O Gerontólogo será o profissional responsável pela avaliação, intervenção e estudo científico do fenómeno do envelhecimento humano e prevenção dos problemas pessoais e sociais a ele associado. Também é o responsável pela promoção de um envelhecimento bem sucedido bem como pela administração e organização dos serviços de preservação de cuidados a idosos. Por isso, o Gerontólogo poderá exercer a sua prática profissional em contacto directo ou indirecto com a população idosa.

Gerontologia Social...
A Gerontologia Social, ciência relativamente recente em Portugal, mas em franco processo de expansão, está associada a fenómenos e a processos de envelhecimento nas sociedades desenvolvidas. Constitui-se enquanto “conhecimento activo” que permite simultaneamente conhecer os fenómenos e agir sobre eles, possibilitando o prolongamento e a melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas, de acordo com padrões de qualidade, nos quais estão implícitos não só as necessidades básicas, mas igualmente direitos, liberdades e garantias.
Articula, desta forma, com uma formação base mais específica em ciências sociais e humanas com os saberes e preparação específica para a intervenção social com pessoas idosas.
Trata-se, pois, de uma diferença ao nível de áreas de abrangências: a Gerontologia abarca áreas de saúde, económia, psicológia, ambiente , cultura do idoso e a Gerontologia Social, entra pelo ramo das ciências sociais.
Competências do Gerontólogo...

- Utilização de conhecimentos e metodologias necessárias para a compreensão holística do processo de envelhecimento humano, nos seus aspectos biológicos, psicológicos, sociais e culturais;
- Utilização de competências para trabalhar em equipas multi-profissionais, centrado nos clientes/utentes, orientado para os problemas e procura de soluções;
- Uso de conhecimentos e competências de avaliação e intervenção nas várias vertentes de apoio ao idoso (promoção da saúde, prevenção da doença, terapia em situações agudas, reabilitação, morte, gestão de casos, entre outros);
- Utilização de capacidades de reflexão crítica, quer sobre as práticas, quer sobre as atitudes e comportamentos perante o processo de envelhecimento e a velhice;
- Manuseamento de instrumentos teórico-práticos com vista à organização, gestão e avaliação de serviços gerontológicos.

domingo, 1 de março de 2009

ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO PORTUGUESA

O processo de transição demográfica em Portugal e um pouco por todos os países desenvolvidos caracteriza-se pelo crescimento exponencial da população adulta e idosa, alterando a pirâmide populacional dos seus países. Actualmente, o grupo etário dos idosos lidera o crescimento, ao contrário dos anos 60 onde era idêntico para todos os grupos etários. Segundo o INE, a evolução registada entre 2004 e 2005 na estrutura etária da população residente em Portugal (incluindo a região autónoma da Madeira e dos Açores) revela um acentuar do envelhecimento da população, com a relação entre a população idosa e a população jovem (Índice de Envelhecimento) a atingir em 2005, os 110, ou seja, mais um idoso por cada jovem em relação ao ano anterior. Este comportamento do índice de envelhecimento advém da diminuição do número de jovens e do aumento do número de idosos, tendo em consideração o decréscimo da taxa de natalidade e o aumento da taxa de emigração. A transição que vivenciamos foi acompanhada lentamente por uma melhor qualidade de vida devido à melhoria das condições sanitárias, médicas, alimentares, assim como a apropriada inserção das pessoas no mercado de trabalho.
Deste modo, e perante o processo de envelhecimento demográfico, a importância daqueles que a sociedade transfere para a margem do próprio sistema, não lhes reconhecendo qualquer utilidade social, aumenta. O envelhecimento demográfico vai, assim, ter efeitos perversos sobre o equilíbrio social. Não por aquilo que o caracteriza em termos demográficos, mas porque, inscrito numa sociedade em que predomina um modelo particular do ciclo de vida, vai agravar o peso daqueles que são discriminados socialmente em função de um critério discutível: a idade. No entanto, e porque o envelhecimento demográfico coloca um desafio à sociedade em geral, importa, através de uma reflexão multidisciplinar, orientar esforços no sentido de uma revisão profunda dos seus fundamentos, de modo que o previsível aumento dos indivíduos com idades mais avançadas não conduza a uma situação de conflitualidade e de exclusão social.
Por tudo isto e muito mais, verificou-se a necessidade de formar profissionais que tenham uma visão holistica do adulto com mais experiencia e anos de vida.